Quem foi 2013?

Padrão

Quem me garante, pois se levante! Quem foi 2013 senão um ano poesia? Poesia, dessas que a gente escreve sem nexo nenhum, como as que já postei aqui, e vive intensamente achando-a a melhor coisa já escrita por uma ser humano. Numa de minhas reflexões pelo Facebook, eu dizia justamente sobre isso: a poesia é uma particularidade explanada em papel. Quanta poesia eu escrevi!

Eu poderia chorar aqui como antes, dizer que este ano foi um suplício só, não que ele não tenha sido, não é isso, mas eu acho que gera um coitadismo desnecessário, parece que há em mim um sentimento de que as pessoas precisam sentir pena de mim. E elas não precisam, assim como eu não preciso desse sentimento delas. Esses dias mesmo eu descobri isso…E quanta coisa eu descobri?

Bem, passei uma semana no litoral com uma família moldada pela vida: um cinquentão descolado, uma mãe moderna, um ”irmãozinho” nerd e uma amiga patricinha, foi interessante e reflexivo. Ao final desta: primeira medalha de campeão. Eu era um dos seletos pra entrar na Universidade Federal do ABC, de imediato arrumei minhas malas, fui fazer a matrícula e enchi-me de esperança a fim de viver um futuro do qual sempre almejei. Estava ali o ponto final de minha história. Estava ali o silêncio dos que não acreditaram em meus sonhos maiores e tentaram deturpá-los. Eu cheguei lá. Não só cheguei como fui além. Semanas depois e eu era, novamente, um dos seletos alunos da Universidade de São Paulo. Também era parte do 1% de alunos que tiraram notas entre 900 e 1000 no ENEM. Eu fui fantástico quando imaginei ser medíocre. A vida me surpreendeu abundantemente e eu aprendi que o segredo é sempre esse: teimar. Eu teimei e cheguei onde queria.

Aí veio a mudança, aí veio muito choro, aí eu tive que deixar de ser o maioral numa cidade de oitenta e poucos mil pra ser um zé ninguém numa cidade de milhões. Eu era mais um numa faculdade desconhecida por mim, num lugar desconhecido por mim (e feio) e morava, adivinhem só: com desconhecidos. Quem foi 2013 senão a ultrapassagem de todos esses meus temores?

E foi dividindo a dor que fez-se amor. Numa conversa triste dentro do restaurante universitário que eu descobri que era egoísmo sentir sozinho tanto medo, tanta mágoa e tanta angústia e achar que estes eram só meus. Eu teria de arrumar um jeito de sair desse fosso, que é normal, mas não eterno. Aí eu cresci, o restaurante virou um centro de risadas e piadas bobas e, às vezes, maliciosas, a vida foi se ajeitando, a rotina foi tomando forma, os amigos foram se aglutinando e eu entrei num grupo de maiorais. Cada um maior em uma especialidade, em uma particularidade, em um sentimento. Eu até ousei escrever um poema sobre isso depois de uma virada de noite fantástica num karaokê na Liberdade, mas acho que o sono me impediu de manter alguma concisão e ele deverá ser lapidado lá por 2014, quem sabe quando pegarei o bloco vermelho novamente?

Também tive de me despedir dos ”amores” de 2013. Amores? Que amores!? Dos flertes, quem sabe. Acho que pela primeira vez na vida eu estou tomando o partido de dizer ”é só amizade”. Talvez um coleguismo. Não sei ainda a que ponto essas minhas relações chegaram ou chegarão, mas já não me motivam mais a deitar e desenhar no teto inerte todo um futuro que quero pra mim. Eu quero muito mais que o perímetro urbano lorenense ou paulista. Eu quero, e preciso, do mundo.

2013 foi um fanfarrão em diversos aspectos, eu cresci uns cinco anos em um, tive experiências fantásticas, reveladoras e acima de tudo: educadoras. Talvez eu esteja agora meio ativista, meio de esquerda, meio revolucionário, meio radical, meio polêmico, meio poeta, meio vadio, meio boêmio, meio cultural, meio excêntrico, meio eu, meio ele, meio nós, meio amor, meio ódio, meio tudo. E um pouco de tudo por ter sido completo em um verbo: viver. (Ao meu modo).

Vivi. Me perdi em São Paulo algumas vezes, entrei em filas, em muvucas, em contingentes, em estatísticas e em greve. Amei duas, três pessoas. Senti ódio delas também. Gostei intensamente de uma pessoa. Escrevi poemas pro amor, pro ódio, pras pessoas e pra vida. Aprendi a assistir o documentário ”Não Gosto dos Meninos” com uma visão de ”é mesmo!”. E me sensibilizei com causas que, em Lorena, eram invisíveis aos meus olhos e aí surgiu o sonho da política. Como político mesmo, exercendo o Legislativo ou o Executivo? Não sei. Mas há algo nesta vida que eu preciso fazer pelas pessoas, e esse sentimento cresce dia após dia dentro de mim. Esse algo é poesia, é política, é nada? Isso eu terei de descobrir vivendo mais ainda essa louca vida que me deram. Também me espiritualizei mais durante esse ano, e a proximidade com minha fé me permitem caminhar olhando o céu e imaginando como será o futuro que terei se eu, com fé e retidão, agir. É só isso: acreditar e agir. A receita não é simples assim, pra mim funciona, mas e pros outros? Bem, eles que, como eu, descubram por eles mesmos!

Quem foi 2013 senão um tremendo de um fanfarrão? E pra 2014? Bem, eu preciso de um prazo pra pensar no que fazer amanhã com os restos da ceia…Importante dizer que sou o maior interessado nas investigações e o Estado deverá ser indenizado.

Uma foto de 2013? Uma música pra 2013? Um filme pra 2013? Não sei.

Um desejo pra 2014? Vida. O resto a gente se vira como pode.

Oh Luas longes.

Padrão

Oh Luas!
Tão longes das ruas,
Tão nuas…
Oh luas decrescentes,
Rima dos olhares
Pobres e descrentes!

Oh Luas tão minguantes
Porque tudo não volta?
Volte Lua, a ser como antes!
Oh Luas, tão novas,
Porque não me renovas?

Oh Luas, tão cheias,
Corram, sentimentos,
Dentro de minhas veias.

Oh Luas cruas,
Luas nuas,
Luas suas.

Oh Luas longes,
Luas de monges,
Luas dos brutamontes.
Luas. Porque suas?

Oh, Luas, meus alimentos.
Porque força?
Porque fé?
Porque amor?
Porque paz?
Porque Luas?
Porque sentimentos!?

*Eu sei que não existe ”longes”, mas eu curti a sonoridade dos S’s.

Onde o mapa num marcô.

Padrão

Lá donde o mapa num marcô,
Onde ninguém pudia avistá…
Era uma secura que só, dava dó só de oiá!
A muié, sem farinha pros fio alimentá.
O homi, sozinho, pra terra começô gritá:
-Ara que disgraça, nessa terra farta tudo!
Mais que fartura havia de ter, no alvo do mundo?
-Essa terra desgramenta, nada que pranta dá!
E o céu enton se abriu e um homi,
Pro moribundo, começô a falá:
-Fala enton, fio meu, que é que tá a te fartar?
-Eu tô cansado, sinhô Jisuis, de tanto trabaiá!
-Mais num era uma terrinha que ce tinha pidido?
-Mais que terrinha desgramada, que lugar isquicido!
-Ocê começô a arar?
-Não só arei, co suor da minha cara eu tamém reguei!
-Ô fio meu, mais que te farta nessa terra?
-Farta tudo, paizinho! Farta amor, farta carinho,
Farta mio pas crianças, tumate pra muié,
Farta batata-doce pa fazê doce, farta inhame!
Farta abraço, farta tratamento iguar, farta a chuva…
Farta o mar! Farta amor, eu quiria amar! Ai Jisuis!
Como eu quiria arguém quimiame!
-Mais e a muié e as criança? Num consegue mais amá?
-Eu inté amo, mais eu quero amor di abraço,
amor di laço, amor di fartura, não amor qui farta,
ocê sabe que eu quero amor di fundo di zóio,
amor dieu e mais arguém qui vem di Deus!
-Ô meu fio, nisso eu num posso ajudá! Se ocê
Pidisse arado, pidisse água, pidisse o mar…
Eu inté dava…mais amor, fio? É mior a terra ará!
O céu enton se fechô, o homi se cansô…
A terra inté que miorô, a chuva chegô…
E ele tá lá, sentado no toco, veno as criação
Escreveno poema, chorano co coração…
Coração qui nem sabe onde fica,
Fica donde o mapa num marcô,
Onde ninguém pudia avistá!
Ah hómi, qui dó que dá!

-Escrevi assim por liberdade poética e vivência com gente que, de fato, fala assim. A mensagem, a meu ver, ficou mais delicada. Mesmo sendo triste, mesmo sendo fruto deste fdp em apuros.

Brincadeira de criança;

Padrão

Se lembra das brincadeiras de criança quando a gente fingia vender coisas? ”Oi fulaninha, quer comprar uma bicicleta?”. Aí a outra criança com a mesma voz fina dizia ”Oi senhor, eu quero, quanto custa?”. Nessa mesma brincadeira saía uma discussão no meio por um querer ser mais controlador que outro: ”Ai, não é assim, já falei, você fala isso, isso e isso.”/”Aí você diz isso que eu digo isso.”/”Aí você vai lá e pega o dinheiro.” Numa dessas noites meio geladas e meio quentes eu voltei pra casa refletindo nessa coisa infantil e pensando no quanto a gente quer controlar, mandar, ordenar. É visceral o desejo de querermos que as coisas sejam como brincadeira de criança, onde a gente controla a nossa fala, a fala dos outros e onde a brincadeira vai terminar. ”Cansei, não quero mais brincar.” Hoje mesmo eu estava cozinhando e pensando no que eu conversaria, com quem eu conversaria, que elogios o prato renderia, que elogios o vinho renderia…E por fim rendeu-me apenas louça pra lavar. ”Agora, amor, você diz que me ama.” E agora Roberto…não sei!

Amor só.

Padrão

Eu só queria que você tivesse entrado na minha vida da forma certa e permanecido nela sem se preocupar com o passar dos dias, entende? Eu só queria que você tivesse me conhecido naquele almoço de domingo como o eterno amásio sonhador, me buscado em alguma rede social, trocado telefone…Eu teria gostado de sair pra tomar um chopp despretensioso, comer um sushi ou uma massa num bistrô na Vila Paraíba. Teria sido bom poder beijar você com medo, tê-lo na caixa de mensagens com medo…ter tido frio na barriga em sair por aí e mesmo assim sair. Seriam tão doces essas noites saindo escondido em busca do nada. Eu iria me emocionar, como agora, se você tivesse dito que queria me namorar, e eu, tão menino, seria o homem que você merecia. Aí a gente ia se amar, a gente ia dançar, a gente ia trabalhar por nós, íamos buscar o que antes era longe e hoje é presente. Seria interessante quebrar tantos paradigmas e tantos valores que nos bloquearam por anos. A gente se reconheceria no olhar, no sorriso, na alma. Eu te amei por tanto tempo que esqueci como posso esquecer uma pessoa que me tirou tantos versos e tantas palavras. Se eu pudesse ao menos lhe agradecer…Eu lembro que disse diversas vezes que você era um qualquer e que eu, ”Sem Muros”, não me prenderia a você e seguiria meus sonhos, mas ah, G., é tão difícil seguir meus sonhos quando você é um deles…Eu me sinto tão sozinho, tão esquecido, tão cinza dentro dessas cidades…Eu gostaria de tê-lo comigo, entende? Eu iria te amar tanto, eu iria poder dizer com a boca cheia o que é amor, eu esqueceria de tantos problemas e impropérios e ajudaria você, também, a construir seus sonhos. Eu me formaria, você montaria seu negócio, a gente teria uma casa, um cachorro, um gato, nossos móveis, nossos amigos, nossa vida…A gente teria tanta coisa se eu pudesse lhe amar e, infelizmente, à vida coube nos separar, sabe-se lá porque isso nos ocorreu…mas ocorreu. Eu já nem choro aos outros, nem explano mais o quão forte é essa tempestade aqui dentro porque você sabe, só você me entenderia. E se eu te fiz como um personagem merecedor de meu amor, é com esse personagem que eu gostaria de me deitar. Às vezes o dia demora tanto pra passar, é tão difícil, tão cheio de tempestades…Às vezes eu preparo o jantar com tanto carinho, monto a mesa pra nós dois…e você nunca apareceu. A taça de vinho sempre fica sem as manchas bordôs, o prato nunca é desenhado pra você, o salmão fica frio…E eu, sozinho, seguro sua mão em pensamento. Esse texto não é um pedido, não estou implorando por uma pontinha de amor, mas é que quando eu me abro com você, mesmo sabendo que você nunca lerá, eu me sinto tão grande, tão amado, tão querido. E esse amor é fruto de toda minha imaginação em tê-lo quisto tanto e nunca ter podido dizer mais que um olá. Já me perguntaram se é possível gostar de alguém que a gente nunca conversou, já me perguntaram se tive grandes amores nessa vida…e bem, para ambas as respostas minha mente desenha você. Eu te desenho no meu bloquinho vermelho de papel. Eu te escrevo em meus poemas mais melosos. E agora Roberto? Não…Roberto é um apelido pra bife emborrachado…E agora G.? E agora que nada! Nada! A gente nunca teve nada, a gente nunca se olhou nos olhos, a gente nunca esteve em paz. Nunca tive paz com você, mas os dias em que dormi imaginando nossa vida a dois…ah, foram os dias de melhores sonhos. Eu explano tantas palavras, tantas ideias, tanto desejo, G., pra dizer que eu não tenho mais medo de dizer quem eu sou e quem eu amo, e se um dia, no futuro, eu amar outra pessoa tão intensamente quanto já lhe amei (ou amo), eu prometo, lhe escrevo de novo.

Receba esse texto, em algum lugar no plano espiritual, e essas minhas poucas lágrimas contidas, como fruto do amor mais masoquista que já existiu: o amor que amei só, o amor deste fdp em apuros.

Moço de preto.

Padrão

Eu só queria que você cantasse pra mim.
Eu só queria provar teus lábios com delicadeza.
Onde você mora?
Qual o seu telefone?
Me diz porque não em minha canção?
Porque olhar sadicamente como açoite?
Me diz onde você está, volta!?
Moço de preto…perdido na noite!

Matei.

Padrão

Hoje eu resolvi matar. Numa aula de Tratamento e Análise de Dados e Informações. Peguei um lápis, risquei o mesmo bloco que abriga tantas coisas escritas no meio das aulas mais desinteressantes do mundo. Contornei, peguei umas canetas de uma amiga e finalizei. No desenho estão todas as pessoas que atormentaram meus sentimentos e me fizeram escrever desenfreadamente. Talvez eu pudesse usar o tamanho de cada cabeça cortada pra mostrar a relevância, mas quanto menor a cabeça, mais preocupado eu estava com os detalhes. O machado é fictício, as palavras são machados. (Também são farpas).

Sem título

O desenho em primeiro plano, eu cortando o Mickey de saia é uma clara alusão a uma das grandes merdas que já fiz na vida. Mas já fiz. Veio uma ideia na minha cabeça: porque não criar o ”Matando o Passado”? Não sei se alimentarei-a da mesma forma que alimento esse blog. É um caso a se pensar. Ideia essa claramente inspirada no ”Matando Carpinejar”, da Cinthya Verri. Aí me veio a fala dela no Jô Soares. Aí eu respirei fundo e continuei prestando atenção na aula, eu já morri várias vezes, hoje foi o meu dia de matar.

PS.: Eu também tentei matar um dos meus demônios, afinal, nós temos vários. Mas acho que a gente tem que aprender a conviver com eles pra superá-los.