A dor que deveras sente.

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A dor que eu, deverasmente, sinto.

Dói. E eu não sei porque. Eu sinto uma angústia forte em dias cinzas, sem sol, sem gente. Parece que tudo foge entre meus dedos, estou andando ou patinando? Afinal, Philippe, você é um homem ou uma pururuca? A vida está me pururucando aos poucos num processo dolorido e triste.

Não aguento mais viver no meio de um campo de batalhas onde a qualquer momento uma bomba pode explodir na minha cabeça. O que está acontecendo comigo? Porque eu não vivo? Estou a ponto de explodir, a ponto de olhar o horizonte pela sacada e mirar na garagem lá embaixo, e o pior é que nem assim eu consigo sumir desse mundo, na pior das hipóteses eu ficaria tetraplégico pulando do quarto andar. Nem é tão alto assim. Nem é tão problemático assim. Nem é tão difícil assim. Você dramatiza demais, Senador.

Não, não, não. Calem essas vozes. Socorro. Alguém olha pra mim, alguém cura essa dor, alguém me dê um mínimo de amor! Eu quero minha mãe! Não, não posso querer, ela está longe. Eu quero meu pai! Não dá pra querê-lo. Eu quero morrer! Não tenho coragem. Socorro.

Tem sido difícil encarar diversas situações como simples, normais e rotineiras. Encará-las dia a dia como se fosse fácil, como se fossem simples, está me custando uma dor que vez ou outra escorre dos olhos. Não está sendo possível. Está forçado, puxado. Porque?

Parece que minha vida nunca terminará numa exclamação ou num ponto final, sempre reticências ou interrogação…sempre?

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Quem é essa Pessoa?

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Quem é essa Pessoa
Que se esconde atrás de Fernando?
Quem é Reis, Caeiro, Campos e Soares?
Se entregaram a que mares?
Quem me garante, pois se levante, que Alberto,
louco de esperto, não fez Fernando?
Que o cruzamento entre ambos não gerou Ricardo,
E porque não ser o original chamado de Bernardo?
Álvaro já nem sei se o é. Fernando Pessoa? Quem é?
Se o visse não saberia.
Quem, na verdade, ele seria?
Verdade, mentira ou pura poesia.
Onde viveu este homem que criou,
Cultivou e controlou a vida de tantos?
Porque Fernando se desfez em tantos?
Meu Deus, estou em prantos!
A dúvida é esquizofrênica…
Fernando Pessoa é só fruto da arte cênica?
Foi-se aos 35 dos 1900
Pra ser a eternidade.
A ambiguidade do ser:
Fernando Pessoa foi quem dizia ser?
Pois se levante, o homem corajoso,
Que vai ousar me derrubar e provar
Que sou apenas um louco!
Fernando era tantos,
Fernando era ambos
Que já nem sei que Pessoa era
Ou se pra mim é só pura treva.
Meu peito putrefato
Se questiona de tal fato…
Fernando, Fernando, Fernando!
Porque és, hoje, somente retrato?
Eu tenho tanto a indagar,
Levanta-te seu controlador de vidas!
Levanta-te e traga os heterônimos!
Nem sei se foram homens ou apenas
Fruto dos teus hormônios…
Quem é essa pessoa que é tudo no que faz?
Que é lua brilhando em todo lago?
Que elimina a cada poema a dor de meu fago.
Levanta, homem covarde e me mostra tua cara!
Me mostra porque na tua escrita meu peito escancara…
Essas dúvidas…pra mim…são fortes escaras…
Quem é essa pessoa rica
Que domina o português,
Que domina o mundo,
Mas eu não sei sua verdadeira tez?
É Alberto, é Ricardo, é Álvaro e Bernardo
É Pessoa e Fernando.
É mundo, é poema, é escrita, é coração amando.
Quem é Fernando Pessoa ou a Pessoa de Fernando?
Já são mais de cem
Os frutos de sua paixão.
Quantos nomes ousou criar
Meu poeta, que é minha indagação?
Porque fizestes tantas pessoas, oh Pessoa?
Porque fizestes tantas obras, oh, sua cobra!
Porque me enfeitiça tua escrita
Se minh’alma deveria ser restrita!
Levanta-te dos mortos, esperançoso sebastianista,
Levanta-te com solo triste de uma caveira pianista.
Descobre teu rosto, me fala do teu gosto,
Me diz que sou cego, me mostra teu ego.
Porque a religião também moldou tuas palavras,
Ela, por si só, já não é um monte de larvas?
Porque disse das sociedades secretas,
se você em atitude seleta
Escolheu dizer mito, herói e tragédia?
Porque no Desassossego teu nome não está cravado?
És um covarde e destes ouro demais a Bernardo!
Quem é este Pessoa? Tem alma boa?
Sou esquizofrênico por tanta questão
E Fernando, dando a volta nas palavras,
Juntará seus muitos filhos
E eles nunca me responderão.
Levanta-te Fernando
E me diz: Quem é essa Pessoa?

 

Apuros.

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E de que me adiantam tantos planos se eles são planos que planejo só?

Hoje eu saí pra ir ao banco e fiquei refletindo sobre isso: ter tudo e não ter nada ou ter nada e não ter tudo? Difícil. São perguntas que venho me fazendo há algum tempo, você que me lê, e não as respondi tão cedo. Nem sei se as responderei com tanta facilidade se há nelas tamanhas dificuldade.

São coisas que me ferem o coração e movem o cérebro. Estar em todos os lugares querendo estar dentro de um peito só. Ter todas as coisas querendo ter um coração só. E que coração haveria eu, um Zé, de ter? Vejamos que tamanhas conquistas em minha vida pra essa pouca idade se deram em meio a diversos impropérios e na maioria das vezes na boa e velha cagada. Caguei e passei no vestibular. Caguei e arrumei amigos. Caguei e me dei bem em algumas matérias. Caguei e cheguei aqui. Será que vou ter que me arriscar ao método das cagadas para chegar em algum lugar? Outra questão.

Uma questão é diferente de uma pergunta. Aprendi numa aula de Políticas Públicas: a questão levanta debate, a pergunta levanta respostas. Desde o ano passado eu venho na busca incessante das mesmas, que pra mim, se resumiam num único nome. Hoje eu sei que dificilmente eu terei esse nome ao lado do meu num tronco de árvore, e eu digo difícil pra não dizer ‘impossível’. Esta dor é lágrima ácida que escorre sobre a pele.

Eu poderia não ter nada. Eu poderia ser um Zé atrás de um balcão, um Zé bolsista numa faculdadezinha qualquer, um Zé ninguém numa cidade de Zé’s. Eu poderia ser tão comum, mas tão comum a ponto de passar despercebido. Eu poderia ser um ‘qualquer um’ se eu pudesse ser ‘qualquer um’ com ‘aquele um’. Aquele um quem? Não sei.

Meu Deus, quantas questões! Pontuemos o que, de fato, me aflige: eu não tenho ninguém…e isso é pior que ser um Zé. Depois que fui pra São Paulo isso passou a me afligir mais ainda. Eu conheço várias pessoas, metade delas tem alguém e metade da metade está se ajeitando com alguém. A outra metade é como eu. Eu não tenho ninguém porque meus amigos não têm a obrigação de estar vinte e quatro horas por dia ao meu dispor. Eu não tenho ninguém porque minha família tem sua rotina. Eu não tenho ninguém porque eu sou chato, uso palavras escalafobéticas, gosto de cozinhar pra dois, gosto de sair e escrevo poesia. Quem escreve poesia hoje em dia? Aliás, quem lê?

Me aflige, você que me lê, não ter quem leia minhas poesias e diga o quão retratantes elas são de nós. Eu busco incessantemente as palavras, as pessoas, os sentimentos…e eles colocam-se num comboio em fuga. ”Oh, meu Deus, o fdp em apuros, corram, corram, corram!” E eu já não tenho mais forças pra correr. Eu queria entender essas coisas da minha vida. Eu vejo tanta gente que não sabe nada e ama intensamente…será que é esse o custo? Não saber nada para saber apenas uma coisa? Outra questão, outra questão, mas que diabos, outra questão!

Fica difícil, a cada dia mais, sair desse emaranhado. Eu escrevo poemas sobre pessoas que não lerão, que não me pertencem, que não serão minhas. Eu escrevo textos pra desabafar e acabado mais abafado. Eu sou uma eterna contradição que, pelo sim ou pelo não, permaneço em apuros. Socorro.

Dentro do meu silêncio.

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Dentro do meu silêncio
Eu penso, mudo, naquele amigo
Que um dia teve de correr e cortou nosso umbigo.
Dentro do meu silêncio
Tá um apertinho, uma ponta de ferido,
Um amor dolorido, um beijo perdido…
Dentro do meu silêncio
Eu acho que sou poeta,
Eu acho que sou escritor,
Eu acho que as palavras me têm em louvor.

Mas dentro do meu silêncio
Eu sou só um Zé tentando ostentar
Que amor e felicidade conseguem se desligar.
Eu sou só um Zé, dentro do meu silêncio
Sentindo-se doente, feliz no que é aparente
Mas buscando, ofegante e descontente
Sanar a dor que não vem do dente.

Quando em meu silêncio, eu busco no caminho comprido
Onde está aquele que vai entender, que vai ser meu amigo?
Onde está aquele que vai me beijar, que vai ser meu amante?
Onde está aquele que vai me amar, que vai ser meu eterno?

Dentro do meu silêncio, o caminho é longe.
Não sei por onde a língua foi, nem quero saber por onde.
Dentro do meu silêncio há um olho morteiro
Desses que dorme, dorme, dorme e não descansa por inteiro.

Dentro do meu silêncio há um olho triste,
Há um homem com dedo em riste
Apontando estrelas, apontando satélites, apontando luas
Mas dentro desse silêncio, eu sou só um Zé
Jogado à rua. Criança nua.

Dentro do meu silêncio eu sou egoísta, eu sou chato
Mas na verdade, lá onde tá tudo quietinho,
Eu queria era abraço, eu queria era ser amado.
E amado de ficar lado a lado,
E amado de sofrer junto,
E amado de ter problema,
E amado de amar junto,
E amado de sentir saudade,
E amado de não ser Zé,
E amado de não se prender
Dentro do meu silêncio.

Desgramado Preto.

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O Preto no beco
Era tão preto…
Desgramado Preto!
Era tão escuro,
Mais preto que a sujeira
Que empretejou o muro do beco.

Pretasso, azul, zulu.
Preto desgramado.
”Preto sim, mas não do meu lado”

Preto suado.
Preto acabado.
Preto pastor.
Preto deputado.

Ele é Preto e eu sou branco,
Ele é rancor e eu sou acalanto.
Ele não gosta de gay, e eu? Bem…
Ele não gosta de negro, porque ele é Preto!

Preto mais preto
Que olho preto de boi preto.
Preto careta, vê defeito em tudo.
”-Tem que ter religião!
-Tem que ter filho!
-Tem que ter família!”

Êta Preto indecente,
Esse Preto, coitado, é preto mas é gente!
É Preto de zóio claro, é Preto loiro,
É Preto rico, é Preto da Oeste.
Mas nada disso me impede de explanar:
Ele é Preto, Preto de enojar!

Ele num samba,
Ele num é baba,
Num sabe cozinhar,
Num sabe trabalhar,
Num sabe ser feliz.
Preto que quer brincar de herança,
Que quer gastar cinquenta pau ali,
Cinquenta pau aqui…
É Preto que num agrega valor,
É Preto que num é gente…
Não basta ser Preto, ele é indecente!

Esse Preto não quer cota, não quer Bolsa
Quer tirar quem tá lá na Esplanada,
Esse Preto tem saudade da ”ditabranda” e sua espada.

Preto desgraçado!
Preto que diz que tudo é do diabo!
O viado? É do diabo.
O negro? É do diabo.
O ateu? Ah, é do capeta!
Esse Preto…esse sim:
Tem que tomar na tarraqueta!

O caboco tem que se fudê,
Esse preto? Rerere…
Por suas palavras vai morrer.

Traje Negro.

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As palavras são o bônus e o ônus de quem lida com a escrita. Agora elas rodeiam todo meu traje negro. Preto. Escuro. Fechado pro mundo. E elas batendo ”-Abre, Philippe!” E eu não hei de abrir!

Quando elas entram, ah, meu amigo, elas saem acabando com tudo que tem pela frente sem pestanejar. Aí elas rodeiam, rodeiam, rodeiam e entram os sentimentos. Ah, que duros sentimentos presos neste negro traje! Ah, porque tanta culpa se eu sou apenas mais um inocente no banco dos réus? -Culpado! Culpado! Culpado!

Na verdade, o culpado deveria ser o ”ainda não amado”. Se culpou porque não fez, se culpou por não perguntar, se culpou por furar, se culpou por culpar.

-E agora, Philippe?
-E agora, senta e chora, Roberto!

Porque não fiz? Porque não tentei? Porque não arrisquei? Porque não mergulhei neste rio sem medo de me afogar? Porque? Porque? Porque?

Ah, que loucura!!! Que culpa!!! Que decepção comigo mesmo. É isso: se este traje negro quer dizer algo, ele quer dizer que estou decepcionado. E parem de implicar comigo! A decepção é com aquele ali do espelho, esse sujeito barbudo que se diz Senador…francamente, um menino com medo das palavras…Senador? Mesmo? Pobre nação brasileira!

Estes impropérios só me torturam a ponto de eu querer chorar muito. Porque eu fui tão covarde? Porque? Mãos tão próximas, lábios tão próximos de dizer sim…e eu aqui. Depois que eu comecei a ser eu mesmo, ficou tudo difícil, fazer um teatro do que querem assistir é muito mais fácil. Este traje enegrecido com minha angústia é só uma parte do todo. E o todo, é cheio de partes.

-E agora, Roberto?
-E agora, senta e sofre, Philippe, seu covarde!