Vai…e foi.

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 E a gente se despede de mais uma história: -Vai, mas leva um pedacinho meu que é pra gente se achar…E foi. Uma história que ensinou tanta coisa e hoje já não diz nada, um compilado de dramas que escreveu muitas comédias. Hoje? Não mais em livros, apenas memória daqueles que sobreviveram.

Já nem sei se é saudade, se é feição ou tudo invenção, só sei que é aquele velho clichê da distância. Complicadíssima a vida daqueles que se cansam do fardo de migalhar por simplicidades, em sua compaixão ela diz entre aspas ”Chora fio, chora que a saudade passa”, mas na verdade a gente não pode chorar perante a deusa maior. 

E assim, dizendo ‘Vai’, a ampulheta para de escorrer…Vai, e foi. Teria levado um pedaço meu? E foi. Teria guardado alguma lembrança? E foi. Teria cogitado a possibilidade do ‘e se’? E foi. Vai…e foi.

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Sábados à noite sempre são o auge da nossa vã esperança de que algo aconteça. A gente espera sair, encontrar o amor da nossa vida, rir com os amigos ou até mesmo ganhar na mega-sena. O sábado à noite muitas vezes diz não pra tudo isso. E gente fica esperando.É como fazer uma pergunta já sabendo a resposta. Sábado à noite a gente sempre sai sozinho se imaginando na companhia de alguém. Sábado à noite a gente presencia casais e olha pro lado se perguntando: cadê? Nem é o ‘cadê’ de saudade ou lamento, é o ‘cadê’ de dúvida. Onde estaria a alma que se compadeceria de mim pra viver um  doce amor? E a gente nunca sabe.
Parece que fizeram da solidão o maior castigo da humanidade, uma vida cheia de nada.Parece que nunca será construída a redoma afetiva da qual estamos sujeitos. Nunca? Sábado à noite a gente olha a lua pensando em comentá-la despretensiosamente, mas não dá. Sábado à noite é cheio dos nãos…até quando nossas mãos não voltarão dadas pra casa? Não se sabe, é sábado à noite.

Teu castanho me persegue, teu perfume me envenena.

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Teu castanho me persegue, teu perfume me envenena.

Todos os dias que saio de São Paulo e volto pra Lorena…teu castanho me persegue, teu perfume me envenena. Todos os dias que saio de Lorena e volto pra São Paulo…também. Todas as vezes que eu fecho os olhos e derrubo algumas paredes dessa casa, coloco móveis a seguir uma linha de desenho, perfuro paredes pra pendurar nossos quadros e reformo a cozinha pra preparar nossos jantares. Todas as vezes que me deito é assim, teu castanho me persegue, teu perfume me envenena.

As vezes em que busco tergiversar da sua vida, em busca da minha…teu castanho me persegue. Sempre que alcanço um resultado, volto-me a pensar que ele é apenas uma etapa pra conquistar algo maior…pra nós. Todas as vezes que alcanço algo, eu me pergunto- o que será que ele pensaria? Não sei. Só sei que teu castanho me persegue, teu perfume importado me envenena.

Sempre que penso como serão os dias de dois-mil-e-vinte-alguma coisa…teu castanho está lá. Às vezes poderá estar, assim como o meu, meio esbranquiçado, mas eu sempre o imagino lá na frente. A gente assim, meio cúmplice de tudo. Eu chegando mais cedo do trabalho pra liberar a faxineira, passear com o cachorro e preparar o jantar. Você chegando mais tarde, com a camiseta branca toda cheia de fragmentos do dia e a pele suada de um dia de gratificação. Todas as vezes eu devaneio nas impossibilidades, porque o teu castanho…

E parece que vivo nessa ciranda sem fim de acordar dando bom dia ao teu espírito que deve ser ligado ao meu, almoçar imaginando meu dia de projeções, e por fim voltar pra liberar a faxineira…Eu não sei que futuro teremos, e se o teremos tão pluralmente, só sei que todos os dias que meus olhos sangram, é porque teu castanho me persegue, teu perfume me envenena.

Dolo meu.

Alvo.

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Eu sou o que eu sou? Eu sou o que eu tenho? Ou eu sou quem eu sou? (Ou pareço ser?)

Parece que a gente nunca responde tudo que tem pra responder, a vida é assim, cheia de perguntas sem respostas e eu, na maioria das vezes, tomo o posto das interrogações pra ser o eterno enigma dilemático redundante e hipérbole que sou. Eu sou tudo isso?

Nunca consegui guardar minhas crises internas, e externas, pra mim mesmo. Como futuro estadista preciso aprender a segurar um sorriso no canto da boca e dizer que a economia, a saúde e o coração do país estão bem. Na verdade, eu sou um feudo que se abre às vezes pra explanar tudo o que tenho. Se é que tenho algo.

Incontáveis vezes já viraram pra dizer, logo após um texto descritivo sobre minha situação:

-Mas Philippe, veja bem, meu amigo: Você faz USP, você mora em um apartamento legal, você tem pais sensacionais, você tem tudo o que você quer. Pra quê o lamento?

É como se a gente vivesse eternamente numa manobra capitalista pra mostrar quem somos: eu sou aluno da universidade tal, moro num apartamento assim, e tenho isso. Eu não sou um resumo do que eu tenho, do que eu vivo, do que eu conquisto. Ninguém é.

O problemas de relacionamentos que engatinham pra um abismo? Deixa pra lá, você mora em São Paulo! As dúvidas frequentes sobre ser real ou não, acreditar ou não, no que há de melhor nas pessoas? Deixa pra lá, você gosta do curso que faz! Esticar os braços com as mãos nos joelhos, abaixar a cabeça e lamentar as respostas negativas que a vida dá? Deixa pra lá, você faz USP.

É como se essa minha condição (morar em SP, fazer USP, morar num apartamento bom e ter pais legais) não pudesse conviver com essas dúvidas de um pré-pré adolescente que ainda vive em um projeto de Senador. ‘Deixa pra lá, Philippe! É só uma manobra capitalista pra repetir clichês, pra cair na dúvida que as pessoas tem em relação a você e desviar o seu foco dos propósitos.’

Ora, eu sou um escritor sem leitor. Um poeta sem amor. Um estadista sem vida política. Um Senador sem mandato. Eu sou a maior manobra que o capitalismo já fez. Eu sou a dor dos que não sofreram, o choro dos que só sorriram, as chagas dos que não apanharam. Eu sou um monte de sofrimento, e eu só posso dividi-lo com as palavras, que ainda não resolveram fugir do meu cérebro.

Eu não sou um futuro Gestor de Políticas Públicas que não se interessa por discursos extremistas. Eu não sou um duro crítico de oposição e situação. Eu não sou cheio de complexos. Eu não sou uma manobra do capitalismo. Eu não sou cínico. Eu não sou amor. Eu não sou cheio de sonhos. Eu não sou sorriso no canto da boca.

Eu sou o alvo do mundo, e o mundo não cabe aqui.

Quando eu Ismália.

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Quando eu Ismália,
Loucura,
Devaneio,
Teatro.
Quando eu Ismália, eu assim…
Todos lá, ninguém por fim.
Ismália eu, mar ninguém.
Quando eu: dúvida?
Responde alguém: ‘não fica assim’.
Quando poeta eu, lê ninguém,
Quando oro eu, anjos sem amém.
Quando decido Ismália,
A atitude é apontada falha.
Se aos buracos mando:
”Oh, olhos sem amor!
Oh, vida em escafandro!”

Quando eu Ismália,
Eu sem chão, eu sem mundo, eu assim,
Se Ismália vivo dentro de mim.
Quando eu Ismália,
Tão pobre, tão sem nada, tão assim
Se Ismália fiz do que há em mim…

 

 

Vida.

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Dói amar o mar mas como não amar o mar sabendo que o mar não me amará? Amarei Amarildos e amores, contudo, mais tenho amor pelo mar.

Tudo faz parte da evolução do ser humano. Ou deveria. Se você não acredita em espiritualidade, que seja a evolução ‘física’, digamos assim. Às vezes algo se quebra em nós porque precisa ser quebrado. Exemplo: a gente tem que quebrar o alicerce pra fazer encanamento. Dadas as devidas proporções, às vezes algo tem que ser quebrado pra que grandes coisas se abram.

Indago, portanto, o seguinte: até quando ou o que mais precisa ser quebrado? Essa vida não é fácil. Quase sempre ela nos prega peças com conselhos clichês ditos de formas diferentes. Penso que, se ela realmente quer nos dizer algo, ela acaba mostrando. Nesses momentos a gente se retrai, e recebe o título de egoísta. Retrair-nos à nossa pequenez, meus caros, não é egoísmo, talvez seja apenas o amor-próprio esquecido posto em prática.

Há um milhão de novas oportunidades certeiras de sucesso se abrindo todos os dias nas janelas da vida. Mas os olhos voltam-se pra onde a gente falhou, naquelas dez primeiras que a gente tentou e falhou. A vida é assim, talvez a gente tenha mesmo é que permitir que as pessoas passem pelos caminhos difíceis pra valorizar os que outrora foram fáceis. Se tudo der certo, tudo bem, mas se não, vem o êxtase do ‘eu sabia!’.

O maior medo das pessoas é o não. Não fazem, não dizem, não tentam…e ainda têm medo de um não que já está com elas. Vida.