Das coisas que ir embora ensina.

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Me vi em 2010, voltando revoltado de um emprego ingrato, cansado de tudo e reclamando até mesmo das coisas boas. Minha ambição naquele momento era ir embora. Em 2011 a mesma ineficácia das pessoas e cansaço das coisas normais me fizeram desejar o mesmo, impulsionado ainda mais por saber que maior era a descrença do que o apoio. Falhei em ambos os anos.

Cri, então, que em 2012 poderia alcançar isso antes do milésimo fim do mundo que a humanidade enfrentaria. Até que a sociedade, que corrompe o homem, me corrompeu. E passei a acostumar-me com a ideia de visitar São Paulo vez ou outra e viver, de uma forma ainda ambiciosa, no interior. Tudo não passou de um lapso de falta de sonhos. E meses depois eu estava me matriculando na primeira universidade, exatos sete dias depois eu voltava pra São Paulo. Eu era, a partir daquele dia, aluno da melhor universidade da América Latina.

Seria motivo de êxtase para aquele que tanto quis ir sem voltas programadas. Mas assim como as coisas, eu já não era o mesmo de 2010 e 2011. Partia-se então meu coração todas as vezes em que eu abria a mala pra recolocar minhas roupas e voltar pra São Paulo. Foi triste por uns quatro meses, depois passou a ser suportável, hoje já me é rotina. Talvez deixe de ser corriqueiro e se torne algo a acontecer vez sim, vez não. Planos futuros.

Ir embora só me serviu pra aprender. Uma das melhores enciclopédias que pude receber do destino. Tenho hoje, pena de mim mesmo chorando tempos atrás, me preocupando com um desmame que já era pra ter acontecido. Tenho um pesar grande em saber das coisas que perdi, dos momentos que não participei e de não ter me dedicado ao que deveria quando a saudade vinha atormentar-me. Lembro-me de quando eu chamava São Paulo de ‘tirana’ em um dos textos escritos a mão livre. ”São Paulo tirana, me tirou isso, isso, isso.”

Na verdade só recebi. Recebi um entendimento maior de que laços se cortam, se enfraquecem e outros sequer existem. São Paulo me tirou o tapa-olho. Aprendi que o primeiro e o último vagão são menos lotados, os ônibus passam a toda hora pro mesmo lugar, se o primeiro está lotado, o segundo já pode te acolher melhor. Se você não sabe pra que lado sair, pergunte ao guarda do metrô. Eles são educados. A PM também é, se você não estiver depredando nada. Se descer em um lugar lotado, ande no ritmo da multidão. E não vá pra 25 de março sem uma garrafinha de água. Aliás, seja onde for: tenha água. São Paulo é bem seca.

A Avenida Paulista perde o encanto na segunda vez que você vai lá. Um monte de gente engravatada, correndo, te atropelando. Mas nas bancas de jornal sempre há livros baratos, basta fuçar as prateleiras que você sempre volta com um, ou dois, ou três exemplares pra casa.

São Paulo me ensinou a ser gentil com as pessoas, seja o gari, o cobrador ou a professora PhD em mau humor. Também aprendi, nesses poucos meses, que ir embora só é ruim no começo, depois vira um expulsa demônios. Voltar pro interior pode trazer dor de cabeça, mas não haverá em nenhum lugar do mundo a batata frita que só a avó sabe fazer. Até porque a família é o que de fato se inaltera independente de quaisquer circunstâncias, sempre haverá uma grávida, um tio pseudo-rico, um tio mau humorado, um avô encanado com as coisas, um pai preocupado, uma mãe infinitamente preocupada, e todos perguntando se você está se virando bem.

Em São Paulo tenho a experiência de conversar com diversas pessoas, desde o judeu até o ex-ateu. Chega a ser engraçado como a pluralidade dessa cidade me encanta, e tudo parece ser tão normal aos dali. É incrível as diversas ambições, os diversos sonhos e as diversas formas de consegui-los. Não há espaço para dogmas e crenças em só uma coisa, só um caminho, só um pensamento. Não há ‘só um’. A individualidade é uma das coisas que aprendi a exercer na cidade grande, e usar no interior.

Quando dizia ‘São Paulo tirana’, eu garranchava uma página. Ao dizer ‘Voltarei, São Paulo!’, uso da melhor caligrafia. É incrível como a gente espanta os medos aos poucos e aprende a viver e se conformar com coisas que nunca mudarão. E lida, também, com coisas que mudam. Mudam porque o mundo não é parado, ele é uma eterna Linha Vermelha lotada, contudo a essência não pode ser mudada: está sempre lotado, corrido e com alguém usando o fone do celular pra conversar. Coisa estranhíssima que não consegui me adaptar.

Vez ou outra ele é Linha Safira, aí entra em reformas e tudo para, mas os atalhos são criados. Ir embora me ensinou coisas de dentro pra fora, não me importam as coisas que de fato corrompem, ou as que se romperam porque tinha que ser assim, me importam as que me corromperam para o bem. A gente, o mundo, tudo: muda. Mas se a essência muda, ela não existe. E quanto a isso, posso deitar-me no meu travesseiro, seja no interior vendo um céu estrelado, ou na capital vendo os aviões passarem nas frentes das estrelas, e descansar em paz.

Eu cri em muita coisa, e hoje me vejo mais efusivo que anos atrás, o ”sonho” de ir embora aconteceu, mas não aconteceu com o de ”nunca mais voltar”, aconteceu pra que eu veja que voltar é uma certeza e o que eu posso viver na volta é incógnita. E que planos são pássaros soltos.

Obrigado, cidade grande! Estou fazendo a lição de casa certinho.

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