Genaro.

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Quando Genaro enlouqueceu, meu bem, me pus a chorar!
Genaro andava de ônibus, mas queria mesmo era voar.
Quando salpicava chuva em seus pés, Genaro via por outro viés,
E louco mesmo era quem de Genaro discordava.
Ao ouvir o canto do vento forte, as janelas punham-se a fechar,
E Genaro, insano, abria-as a fim de colocar as cortinas para dançar.
Se Genaro dizia ser amor, as paixões odiavam sua loucura,
Mas Genaro, quando dizia, era só com palavras de candura!
Medroso e perplexo, Genaro escondia os espelhos,
Tinha medo de ver cair os cabelos, aparecerem rugas,
Ou até mesmo virar um coelho.
Genaro, quando ia e vinha diversas vezes, perguntava-se em alto e bom tom
-Para onde vão essas pessoas? O que pensam? É algo ruim ou algo bom?
E Genaro então, não sabia que era um deles.
Mas sabe, meu bem, Genaro não era mesmo!
Genaro tinha muita coisa pra pensar, pouco tempo pra realizar.
Aí todos perguntavam se Genaro, de fato, era o louco.
Talvez. Quem sabe? Um pouco!
Genaro não tinha medo de lutar,
contra seus gigantes eram os problemas. Matemática, amor e dilemas.
Mas assim que eles surgiam, ah benzinho, Genaro escrevia poemas!
Punha-se, então, o Sol no horizonte, e Genaro, sabe-se lá de onde,
Tirava do peito os passarinhos, soltava-os para voltarem aos seus ninhos.
E Genaro, o louco, na verdade era normal.

O triste, meu bem, era que ninguém entendia
Que o problema de Genaro, fazia mais bem do que mal!

Puxado pela perna.

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Nem escrever mais eu consigo, tamanha a explosão de sentimentos dentro de mim. Parece que por trás desse corpo há um milhão de eu’s querendo dizer algo por uma só boca. Não consigo organizar a briga interna.

Eu me sinto sozinho, e essa solidão fere. Fere porque ela não é entendida por ninguém, nem por eu mesmo. Fere porque quando eu quero explaná-la na busca de um consolo, os discursos são sempre os mesmos clichês. Sempre as mesmas ladainhas de que eu tenho que me desprender, que eu tenho que sair sozinho, me dedicar, correr atrás e etcs, etcs, etcs. Quem me vê, me sabe. E eu faço tudo isso, todos os dias. Ninguém me vê, ninguém me sabe.

Parece que todas as tentativas de voltar a ser o que era, e não deveria ter deixado de ser, são vãs. São fracas. Só eu me dedico a projetos megalomaníacos que não vão dar em nada. E todas as vezes que eu digo que não titubearei e serei concreto pra que não haja uma próxima vez, soam como os mesmos discursinhos clichês que fazem a um culpado sem saber o porque dele cometer o crime.

A vida me puxou pela perna e tem arrastado minha cara no chão todas as vezes pra me mostrar que, assim como feto e criança, continuo sozinho e perambulando pelo mundo atrás da minha última parada. Já nem sei onde estou e o que busco. Eu sou o comediante que faz piadas pra ninguém rir, o palhaço que faz criança chorar, o equilibrista que cai.

Eu sou o garçom que segura a bandeja com vários copos, mas não encontra sequer um cantinho pra colocar o seu. Não há espaço. Me sinto como se fosse aquele monte de quinquilharia que a gente acha no meio da faxina, coloca numa caixa e joga num quartinho no fundo do quintal pro caso de um dia precisar usar de novo. Se é que terá alguma utilidade de novo.

A vida me puxou pela perna, e dói. Assim como essa solidão. A vida tem me puxado pela perna, mas culpado que sou, não vi quantas glórias ela já me deu. Nossa, que mal-agradecido! Eu deveria era levantar as mãos pro céu e agradecer! Mas não posso, a vida me puxou.

Estou numa ida sem volta, em apuros, e o filho da puta sou eu, buscando a última parada. E pelo visto ela não terá cartaz de boas vindas.

 

Cada dia mais eu me convenço de que na verdade nós não gostamos de determinado momento, pessoa ou lugar. Mas da maneira como nós os vemos e formamos uma imagem que não existe ou que talvez elas não são, nos encantamos pelas coisas que nós criamos e não pelas que realmente são. É como um brinquedo velho que enquanto criança nós somos fascinados, mas no momento certo e em dada hora da vida, você retira ele do fundo de uma caixa e percebe que não tem mais graça nenhuma, os carrinhos já não andam mais, os bonecos estão desmembrados e as pessoas, bom, as pessoas se vão junto com as ilusões que você projetou sobre cada uma delas. Essa é a vida.

Das coisas que ir embora ensina.

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Me vi em 2010, voltando revoltado de um emprego ingrato, cansado de tudo e reclamando até mesmo das coisas boas. Minha ambição naquele momento era ir embora. Em 2011 a mesma ineficácia das pessoas e cansaço das coisas normais me fizeram desejar o mesmo, impulsionado ainda mais por saber que maior era a descrença do que o apoio. Falhei em ambos os anos.

Cri, então, que em 2012 poderia alcançar isso antes do milésimo fim do mundo que a humanidade enfrentaria. Até que a sociedade, que corrompe o homem, me corrompeu. E passei a acostumar-me com a ideia de visitar São Paulo vez ou outra e viver, de uma forma ainda ambiciosa, no interior. Tudo não passou de um lapso de falta de sonhos. E meses depois eu estava me matriculando na primeira universidade, exatos sete dias depois eu voltava pra São Paulo. Eu era, a partir daquele dia, aluno da melhor universidade da América Latina.

Seria motivo de êxtase para aquele que tanto quis ir sem voltas programadas. Mas assim como as coisas, eu já não era o mesmo de 2010 e 2011. Partia-se então meu coração todas as vezes em que eu abria a mala pra recolocar minhas roupas e voltar pra São Paulo. Foi triste por uns quatro meses, depois passou a ser suportável, hoje já me é rotina. Talvez deixe de ser corriqueiro e se torne algo a acontecer vez sim, vez não. Planos futuros.

Ir embora só me serviu pra aprender. Uma das melhores enciclopédias que pude receber do destino. Tenho hoje, pena de mim mesmo chorando tempos atrás, me preocupando com um desmame que já era pra ter acontecido. Tenho um pesar grande em saber das coisas que perdi, dos momentos que não participei e de não ter me dedicado ao que deveria quando a saudade vinha atormentar-me. Lembro-me de quando eu chamava São Paulo de ‘tirana’ em um dos textos escritos a mão livre. ”São Paulo tirana, me tirou isso, isso, isso.”

Na verdade só recebi. Recebi um entendimento maior de que laços se cortam, se enfraquecem e outros sequer existem. São Paulo me tirou o tapa-olho. Aprendi que o primeiro e o último vagão são menos lotados, os ônibus passam a toda hora pro mesmo lugar, se o primeiro está lotado, o segundo já pode te acolher melhor. Se você não sabe pra que lado sair, pergunte ao guarda do metrô. Eles são educados. A PM também é, se você não estiver depredando nada. Se descer em um lugar lotado, ande no ritmo da multidão. E não vá pra 25 de março sem uma garrafinha de água. Aliás, seja onde for: tenha água. São Paulo é bem seca.

A Avenida Paulista perde o encanto na segunda vez que você vai lá. Um monte de gente engravatada, correndo, te atropelando. Mas nas bancas de jornal sempre há livros baratos, basta fuçar as prateleiras que você sempre volta com um, ou dois, ou três exemplares pra casa.

São Paulo me ensinou a ser gentil com as pessoas, seja o gari, o cobrador ou a professora PhD em mau humor. Também aprendi, nesses poucos meses, que ir embora só é ruim no começo, depois vira um expulsa demônios. Voltar pro interior pode trazer dor de cabeça, mas não haverá em nenhum lugar do mundo a batata frita que só a avó sabe fazer. Até porque a família é o que de fato se inaltera independente de quaisquer circunstâncias, sempre haverá uma grávida, um tio pseudo-rico, um tio mau humorado, um avô encanado com as coisas, um pai preocupado, uma mãe infinitamente preocupada, e todos perguntando se você está se virando bem.

Em São Paulo tenho a experiência de conversar com diversas pessoas, desde o judeu até o ex-ateu. Chega a ser engraçado como a pluralidade dessa cidade me encanta, e tudo parece ser tão normal aos dali. É incrível as diversas ambições, os diversos sonhos e as diversas formas de consegui-los. Não há espaço para dogmas e crenças em só uma coisa, só um caminho, só um pensamento. Não há ‘só um’. A individualidade é uma das coisas que aprendi a exercer na cidade grande, e usar no interior.

Quando dizia ‘São Paulo tirana’, eu garranchava uma página. Ao dizer ‘Voltarei, São Paulo!’, uso da melhor caligrafia. É incrível como a gente espanta os medos aos poucos e aprende a viver e se conformar com coisas que nunca mudarão. E lida, também, com coisas que mudam. Mudam porque o mundo não é parado, ele é uma eterna Linha Vermelha lotada, contudo a essência não pode ser mudada: está sempre lotado, corrido e com alguém usando o fone do celular pra conversar. Coisa estranhíssima que não consegui me adaptar.

Vez ou outra ele é Linha Safira, aí entra em reformas e tudo para, mas os atalhos são criados. Ir embora me ensinou coisas de dentro pra fora, não me importam as coisas que de fato corrompem, ou as que se romperam porque tinha que ser assim, me importam as que me corromperam para o bem. A gente, o mundo, tudo: muda. Mas se a essência muda, ela não existe. E quanto a isso, posso deitar-me no meu travesseiro, seja no interior vendo um céu estrelado, ou na capital vendo os aviões passarem nas frentes das estrelas, e descansar em paz.

Eu cri em muita coisa, e hoje me vejo mais efusivo que anos atrás, o ”sonho” de ir embora aconteceu, mas não aconteceu com o de ”nunca mais voltar”, aconteceu pra que eu veja que voltar é uma certeza e o que eu posso viver na volta é incógnita. E que planos são pássaros soltos.

Obrigado, cidade grande! Estou fazendo a lição de casa certinho.

Onde Judas perdeu as botas.

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Meus olhos buscam, em vão, tentar encontrar em ti algo de mim. Busco e não vejo, ando caçando redemoinhos para ver qual deles acabará, ou me deixará de vez, no caos.

Leva contigo pedaços de mim, resquícios dos melhores momentos que vivemos. Se deleite com a vida na qual escolhera viver. Sobre a vida? Sobreviveremos. Quem sabe uma vez ou outra morreremos, de novo, e nasceremos, de novo.

Não há no fundo dos olhos aquilo que um dia fez parte de minhas pupilas. Sumiu sem deixar rastros. Queima aquilo que te resta de mim, renova-te a cada dia. Busca na vida a tua pedra, busca no mundo a tua coroa.

Encontro em ti algo que nunca foi meu, e nem será, porque de tantas metamorfoses fica em mim aquilo que já não é. Petrifiquei os momentos que deveriam virar fotografia, somente as teias de aranha tecem os rumos agora.

-Culpado! Culpado! Culpado!

Sussurra em meu ouvido a culpa de ter partido sem dar adeus. Estou fadado a levar dentro de mim o peso de ter que, forçadamente, esquecê-lo, amor meu. Estou contando agora, dentro dessa prisão em que me colocaram, os dias que vivo a tomar doses homeopáticas do veneno do esquecimento.

Dói. Já não suporto ter que viver escorando-me nos corrimãos da vida. Judas enforcou-se tão somente por culpa. Pesa em mim a mesma, e se, como dizem, ele perdeu as botas ninguém sabe onde…Perdi meu coração. Onde ninguém sabe.

-Onde está seu coração, Philippe? 

-Perdi. Onde Judas perdeu as botas. 

-É assim?

-Todas as vezes.

Pífio.

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Faz, não faz.

Vai, não vai.

Vem, não vem.

Foi, não foi.

Tem, não tem. 

Pede, não pede.

Pífio!

Se pra X sim, pra mim não.

Minão.

Minam: sentimentos.

Ódio.

Raiva.

Dor.

Tristeza.

Retrocesso.

Inverso do progresso.

Volta, eu regresso.

Como anda? 

É paralítico.

O que faço?

Resposta de analítico.

Firme, quieto.

Crítico.

Fica bem, fica mal.

Melhorará. Não será.

Vai. Não vai.

Silêncio.

Tentativa. Derrota.

Busca. Perda.

Tentativa. Chacota.

Foi? Não, não foi.

Silêncio.

Se fez, feito está.

Tudo que se faz,

Portanto,

Pífio é.

É! É Pífio!