Todas as vezes.

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Todas as vezes que eu fecho os olhos.

Parece que há algo que sangra, uma ferida mínima que não consigo encontrar. O pior tipo de câncer. Sempre está lá, não sei onde, todas as vezes que fecho meus olhos, algo que grita.

Algo que pede clemência, que implora, que quer socorro. Não sei onde está. Todas as vezes que eu fecho meus olhos são pra tentar, por vezes em vão, segurar as lágrimas que ali não cabem mais. Fecho e estou longe, abro e a realidade pede por lágrimas.

Quando me dizem que as coisas virão, fecho meus olhos. Quando me dizem que vai dar certo, fecho meus olhos. Algo me diz que não, que está errado, que no fundo há algo que não será, que não é compatível com a realidade.

Triste época da minha vida, tão longe do céu, tão perto da realidade.

Todas as vezes que fecho meus olhos, milhões de figuras permeiam minhas pálpebras. Eles vão e vem, e nenhum permanece. Todas as vezes que fecho meus olhos, sinto que estou deixando que minha vida pule do quarto andar. E quando ela pula, sequer consegue dar cabo dela mesma. Todas as vezes que fecho meus olhos, obrigatoriamente tenho que abri-los e quando o faço, lá está, estrebuchando e pedindo socorro toda quebrada. Ah, vida! Todas as vezes que fecho meus olhos, suspiro.

Então, já nos farrapos em que me arrasto há tempos, pego-a no colo e curo suas feridas. Mas incrivelmente sempre haverá uma bactéria maldita capaz de infeccioná-la e mostrar-me o quão vão são todas as tentativas.

Todas as vezes que fecho meus olhos me sinto um soldado que atira no inimigo e, como num desenho animado, alguma barreira protege o outro e me volta todas as balas. Explodem em minhas vísceras. Todas as vezes que fecho meus olhos sinto que sou apenas banquete de abutre. Todas as vezes que fecho meus olhos, estendo minhas mãos…ninguém as pega senão o vento pra dizer-me que a hipotermia é um dos males que pode me levar.

Todas as vezes que fecho meus olhos para amar, começo a sangrar. E por não saber onde está essa ferida que pede socorro, fecho meus olhos e deixo doer, sozinho. De novo. É assim? Me indagam.

-Todas as vezes.

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