Diálogo.

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-Como você está?

-Não me sinto bem, a rejeição está me incomodando. Tudo vaza entre meus dedos, não seguro nada em minhas mãos. Sinto o cheiro do fracasso e o gosto amargo da derrota. Se miro um alvo a atingir? Abaixam meu arco com palavras. Pesam minhas costas. O mundo gira e eu continuo parado. Mesmos caminhos, mesmas coisas, mesmas pessoas, mesmas decepções, mesmas contradições…

-Calma. Tudo vai ficar bem. As coisas vão se resolver. Olha as conquistas que você tem. Olha como você é. Não é X, Y ou Z, vai chegar. Você sabe. Coisas melhores virão. 

 (E blá,blá,blá…)

-Quando virão? Quem é então? Porque não se resolvem?

-Viu o que aconteceu na novela ontem?

 

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Pixels sem cor.

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Quando tudo fica bem, você vem.
Sem dizer oi, olá, ou perguntando se tudo está bem.
É cruel. Como laço em meu pescoço, aperta.
E se dói, a ordem é pra engolir o choro.
Quando indago porque não, o olhar é sisudo.
-É meu, não é teu. O mundo sim, você não.
E se lhe apago, do nada tudo é refeito.
E se decido colorir, vem você em preto e branco,
Segurando-me pelo pescoço, frente a este barranco.

 

Mistério. Resumo dos pixels sem cor.

Todas as vezes.

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Todas as vezes que eu fecho os olhos.

Parece que há algo que sangra, uma ferida mínima que não consigo encontrar. O pior tipo de câncer. Sempre está lá, não sei onde, todas as vezes que fecho meus olhos, algo que grita.

Algo que pede clemência, que implora, que quer socorro. Não sei onde está. Todas as vezes que eu fecho meus olhos são pra tentar, por vezes em vão, segurar as lágrimas que ali não cabem mais. Fecho e estou longe, abro e a realidade pede por lágrimas.

Quando me dizem que as coisas virão, fecho meus olhos. Quando me dizem que vai dar certo, fecho meus olhos. Algo me diz que não, que está errado, que no fundo há algo que não será, que não é compatível com a realidade.

Triste época da minha vida, tão longe do céu, tão perto da realidade.

Todas as vezes que fecho meus olhos, milhões de figuras permeiam minhas pálpebras. Eles vão e vem, e nenhum permanece. Todas as vezes que fecho meus olhos, sinto que estou deixando que minha vida pule do quarto andar. E quando ela pula, sequer consegue dar cabo dela mesma. Todas as vezes que fecho meus olhos, obrigatoriamente tenho que abri-los e quando o faço, lá está, estrebuchando e pedindo socorro toda quebrada. Ah, vida! Todas as vezes que fecho meus olhos, suspiro.

Então, já nos farrapos em que me arrasto há tempos, pego-a no colo e curo suas feridas. Mas incrivelmente sempre haverá uma bactéria maldita capaz de infeccioná-la e mostrar-me o quão vão são todas as tentativas.

Todas as vezes que fecho meus olhos me sinto um soldado que atira no inimigo e, como num desenho animado, alguma barreira protege o outro e me volta todas as balas. Explodem em minhas vísceras. Todas as vezes que fecho meus olhos sinto que sou apenas banquete de abutre. Todas as vezes que fecho meus olhos, estendo minhas mãos…ninguém as pega senão o vento pra dizer-me que a hipotermia é um dos males que pode me levar.

Todas as vezes que fecho meus olhos para amar, começo a sangrar. E por não saber onde está essa ferida que pede socorro, fecho meus olhos e deixo doer, sozinho. De novo. É assim? Me indagam.

-Todas as vezes.

Jamais.

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Jamais,
Palavra tocante, assoviante.
Palavra que marca e nega.
Palavra que esfrega.
Jamais, faça. Contradiz.
Jamais faça. Ordena.
Jamais negue. Afirma.
Palavra toante que me rima a vida,
Palavra que bota nos prumos,
Que cria novos rumos.
Ele disse. Jamais.
Palavra que desafia.
Que antes de cortar com a navalha,
Pega-a e afia.
Gostou, mas…
Jamais.
Negue.
Seu amor.
Jamais.
Ele fará. Jamais
Falsa esperança.
Você? Rárárá.
Jamais. Já não é mais.
Gosto. Mas jamais.
Gosto, mas lá fora há mais.
Jamais esse. Sempre aqueles.
Jamais…
Palavra que jamais,
Ou nunca mais,
Entenderei.
Jamais ouso. Já não mais penso.
Me ferve o sangue.
Jamais pararão de esfregar,
Com força -jamais- antes vista,
As verdades no meu rosto.
Jamais. Palavra que dói.
Palavra que como rato no queijo, rói.
Jamais morde. Jamais destrincha.
”Diga que você me pertenceu,
Pise, machucando com jeitinho
Este coração que um dia foi seu”

-Eu consegui, e você?
(Ecoam risos),
Jamais!

As provas de amor são ridículas.

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Todas as cartas de amor são ridículas, eu te entendo Fernando! Eu te entendo e sei que as provas são piores que as cartas. As provas de amor, ah sim, elas são ridículas!

As provas de amor expõem o sentimento que não é. Que não há. As provas de amor são ridículas porque são choro, são dolo. E se o são, é porque não eram pra ser provas de amor.

Não há amor de um senão o de Narciso, e nem ele se contentou. Há amor de dois, três e mil, amor pelo que há ali, no fundo, atrás dos olhos. Amor não é criado em prova de amor.

As provas de amor são ridículas.

O amor é a prova em si. Em que o derrotado coroa o vencedor, e o vencedor deita-se para o derrotado. O amor é a prova de fogo que queima, que arde. O amor é dolo, é deitar-se em cama de pregos e continuar sorrindo. É doar-se e não doer-se.

As provas de amor são ridículas. Porque quem ama, e sabe que ama, não precisa provar que ama. Quem sente amor, sente dor. E quem ambos sente, sabe que o amor existe. E se ele não existe, pra que provar?

As provas de amor são ridículas. Sempre tive medo dos riscos e da rejeição. Por isso não arrisquei, por isso fui rejeitado. Não por alguém, mas pelo amor mesmo. As provas de amor são ridículas, e não é querendo provar que a gente o prova.

Por fim, tudo dá errado e a gente percebe: as provas de amor são ridículas. Ou foram, em 2008. Quem lembra?

Abre a janela.

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Eu abro sua janela para que o vento entre. Ele canta e bate ela. Venta frio.

-Fecha!

Eu fecho. E estou do lado de fora, sendo levado como folha ao vento que vai e vem. E a prosa de janela, coisa de comadre de interior, nunca mais.

Pela janela eu ouço teus sons. Sinto, de longe, seu cheiro sendo levado pelo vento. Vão eles, fico eu.

E a prosa de janela? Não a abro mais…covardemente fico ali, sentado sorrateiro esperando você abrir e perguntar como está o tempo. E se você abrir sua janela pra mim, meu jardim se floreará pra você. Talvez o vento vire brisa, porque brisa é amor, vento é paixão.

E quem sabe, então, a prosa de comadre se estende e meu olho não fica mais tão vago, tão lá, tão longe…E quem sabe eu fique, de vez, na sua janela.

Posso ser bolo quentinho se quiser se alimentar. Posso ser suco fresco se quiser se refrescar. Posso ser porta se quiser sair, ou brisa se quiser ter beijos de sentimento. 

Eu posso ser o infinito, se você abrir a janela. Eu posso conversar com você, e você me entender e rir das minhas piadas tolas, se você abrir a janela.

Se você abrir a janela, quem sabe eu seja menos covarde. Quem sabe você, por um lapso ou outro, resolve abrir a janela…e com a janela aberta, ah…abre a janela que eu te conto!