Você, prisão.

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Você, pés descalços. Desnudo. Mudo. Frio.

Você, inconcebível. Tragando. Tragado. Tramado.

Anjo morto. Ou morte?

Você.

Olhos azul céu. Cabelos, cor de fogo desbalanceado. Amarelo, ouro de aluvião.

Você. Anjo. Demônio. Tormento.

Silêncio. Indiferença. Pedante.

Pés descalços, mãos geladas. Olhar vago. Parado, vaso.

Negro. Escuro. Silêncio.

Você, meu demônio. Tormento, alucinação.

Você, prisão.

Negue a tragada.

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Quando eu pedi pra você me encontrar, você se perdeu. E dentro de mim, no fundo, algo tremeu pedindo socorro. Eu já me rendi como tapete ao chão. Tolo.

Eu não nego o meu querer, o meu desejo que vai além da carne e consegue urrar da minha alma. Me consome dia a dia o sentimento. Você, como acendia os cigarros antes, tem me tragado pra dentro e se isso tornou-se um vício, eu quero ser a tua cura. Porque a cada vez que você traga, o meu querer aumenta. E se há câncer que nos mate, que ele se manifeste. E se há cura para nossa dor, que nós a encontremos.

E se eu não nego meu querer, negue a tragada. (Por favor, amor).

Negue sugar-me dia a dia sem saber que a nicotina que sou, é pouco pra saciar tua carne. Que não sou charuto cubano. Sou mera mercadoria paraguaia. Negue acender o isqueiro do meu amor, negue acender-me. 

Eu lhe peço, sonho morto, morra de vez. Pare de estrebuchar dentro de mim. Negue viver. Negue a tragada.

Negue o olhar que entra nos meus olhos e busca o que há de podre em mi, negue me controlar. Negue, negue, negue. Negue para que eu aceite de bom grado o que é pra ser meu fardo. Negue para que eu, enfim, aceite meu desespero. Negue sua indiferença. Negue sua palavra. Mas não, não negue que eu te amei como sonhara e nunca tivera. Não negue que eu tive pra ti tudo, mas recusaste.

Não negue que por tempos eu fui tua nicotina, mas por ora, negue a tragada.

Até quando seremos broxas?

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Quando a gente deixa, a gente acaba deixando a deixa pra que aquele amor que se foi, volte. A gente acaba permitindo, de certa forma, que ironicamente aquela criança no cesto deixada na casa de outrem, grite nosso nome. A gente não espera ela se desenvolver, a gente não espera que a criança cresça, tome suas rédeas e saia. A gente lida com o amor imaturamente. 

 É triste, porque sabemos que o futuro incerto geralmente será o mesmo daqueles que se desesperam diante dos impropérios: jogar-se de um andar de dois dígitos. Do alto do meu quarto andar, limito-me a olhar os aviões passarem acima da minha cabeça como grandes pássaros. Olho, curioso como um menino, pra dentro das janelas que estão há metros de distância. Vã tentativa de descobrir um crime. Um criminoso atrás de pistas.

 Deixando a criança chamada amor nas portas de quem realmente possa criá-lo, nós permitimos que nossos sonhos pulem dos mais altos andares. É cruel saber que somos insuficientes em nós mesmos para lidar com sentimentos que, vez ou outra, foram criados por nós. Estão ali porque nós, diante de um momento impensado, cometemos o ato desprotegido de olhar no olho. De respirar em sintonia ainda que mesas de distância. De gaguejar ao dar um ‘oi’ e um ‘adeus’. E é a partir daí que nós, tolos, criamos um mundo que não existe.

 E a deixa é a volta. A volta daquele que deixamos achando ser, enfim, liberdade para não ter de lidar novamente, com o mesmo amor, com o mesmo sentimento, com a mesma dor. A gente deixa a deixa para o regresso, sabendo que estamos permitindo o mesmo, mas ainda com aquela esperança dos que amam de que ‘tudo vai se resolver’, de que ‘vai ser meu amor’, de que ‘a hora vai chegar’. E meus caros, é triste dizer isso em meio a apuros, mas assim como o amor, essa esperança não nos cabe. Assim como o abraço, que parece de longe ser gostoso, ela não nos é cabível nesta vida. Porque a esperança, também cruel, cria espaço para novos conflitos e guerras nesse campo sentimental. 

 É dor. E continuará doendo, e continuaremos amando, e continuaremos sofrendo, até o dia em que formos realmente fortes, em que formos recíprocos em nós mesmos e suficientes para puxar pelos cabelos o sentimento que tenta se jogar do alto. 

 Até quando abandonaremos nosso amor na porta dos outros? Até quando permitiremos que ele se crie para o suicídio?

Até quando seremos broxas?