E se? E se? E se?

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Porque a sinceridade é tão temida? A gente se veste de coragem pra usá-la como a melhor arma, ter nela um norte e visar a partir dali um horizonte que nós imaginamos, mas a gente se esquece: dentro de nós há o temor. Sempre há. O temor de que nossa palavras ricocheteiem e voltem, de que de tão sinceras voltem ecoando mais verdade. A gente é sincero, mas é cagão também.

Às vezes a gente se priva de um sofrimento diário e sente falta, sente porque temos em nós um sentimento masoquista, uma vontade mínima de sofrer e usar desse sofrimento pra mover os nossos motores, pra andar firmemente pé a pé e não cair e caso os joelhos falhem: a gente se apoia nas paredes. É bobeira acreditar que sempre vai ter alguém do lado, na frente ou atrás talvez. A gente se priva de um sofrimento por um tempo delimitado pelo destino, a gente acha que vai ser infinita a privação e que enfim conseguiremos ter a tão sonhada liberdade pra ser feliz, erro pífio de quem se acha muito dono de si mesmo. Erro meu, erro meu.

E é se privando tanto de tudo que a gente sente falta sem saber que está sentindo, só sabe quando a gente se depara com aquilo que a gente luta pra renegar mas não consegue. Quão covardes nós somos? Quão cruéis somos com a gente mesmo? Eu teria zilhões de razões pra não sentir, não amar todo mundo, não sofrer. Mas parece que essas zilhões são tão ínfimas perto de um único motivo que às vezes faz sorrir, faz amar, faz sofrer.

Eu me lembro das cenas da infância: a mãe vai dar uma mamadeira pra uma criança faminta que está no colo da visita. A criança chora por aquilo que quer, mas ainda não tem força pra sair andando e buscar o seu leite, o que ela faz é acompanhar com o olhar até que a mãe, toda em amor, lhe dá aquilo que almeja. Quão bebê tenho sido? Vou ficar acompanhando tudo com o olhar e esperar que uma mãe me entregue de mão beijada aquilo que eu quero? As crianças também crescem, mas nunca param de chorar por aquilo que desejam. Ainda choro, mas preciso crescer.

Me machuca muito a inutilidade que a gente pode ter. O tempo que a gente perde dormindo ou não fazendo nada, porque não podemos preencher as 24h do dia? Quem disse que é obrigatório dormir à noite e viver durante o dia, e se eu quiser fazer ao contrário? O shopping vai estar aberto, a farmácia vai entregar os remédios e no mercado vai haver alimento à disposição do meu dinheiro? Mas é claro que não, errado e fdp sou eu, os outros sempre estão certos.

‘Vai Carlos! Ser gauche na vida.’

E se? E se? E se? E se eu parasse com as incertezas, me despedisse das dúvidas e fosse em busca da minha parada certa? E se a lua respondesse minhas perguntas e as estrelas dessem uma rumada em meus passos, eu teria coragem de ir? E se eu não temesse a sinceridade das respostas que não chegam?

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