Esse texto, ”O…

Citação

Esse texto, ”O fim”, é, de fato, o fim do FDP em Apuros. Foram 102 coisas escritas entre cartas, poemas e crônicas, mas em tudo há um começo e um fim. E foi bom, ao menos pra mim. Eu ainda não achei minha última parada, mas isso não significa que tenha falhado. Obrigado a quem leu e quem ignorou, dispensando a petulância que pode haver (mas, de verdade, não há), tudo o que escrevi foi pra parte de mim. Enfim, foi o fim.

O fim.

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Oliveira,

Sei que não nos devemos explicações acerca da vida. Sei também que você deve ter uma leve noção de quem eu seja, de onde nos vimos e de como nos conhecemos. Paralelo a estas circunstâncias, peço-lhe perdão por qualquer sentimento ou a falte do mesmo que esta carta lhe implique, eu apenas preciso que a leia.

Diante de um novo ano, de uma falsa ideia de que tudo mudou, meu âmago está suplicando por palavras que sejam direcionadas a você. Não sei se há razão nas coisas que o coração diz, mas se o meu entendimento pede que eu o ouça, assim o faço agora. É importante que saiba como tudo começou, o que tudo se tornou e como estou caminhando com isso. Não seria uma carta o suficiente para explicar-lhe cada parágrafo dessa história escrita apenas por mim.

Desde aquele almoço de domingo, minhas ideias perturbaram-se. Não sei o que me impediu de iniciar uma conversa, um assunto qualquer. E foi assim, estático, à primeira vista que eu me apaixonei. Já me disseram que esse tipo de sentimento não existe, que é loucura minha e que eu deveria conhecer pessoas, sair mais, diversificar minhas relações, aumentar meus círculos de vivência, me amar mais e etc, etc, etc. E quer saber? Nada faria sentido se, ao deitar-me, eu continuasse enxergando a penumbra de teu rosto estampada no teto branco do meu quarto. Teu castanho me persegue. Teus olhos castanhos abrem-se pra um caminho que nem Alice ousaria adentrar, são tempestade, são pôres-do-Sol, são esperança, são olhos castanhos enigmáticos. Às vezes assustados, às vezes desafiadores, às vezes imaturas. São teus olhos castanhos o oceano em que ouso mergulhar.

Já escrevi muito dizendo o quanto escrevi sobre a sua pessoa, Oliveira. Mas, de fato, o que isso te importaria? Será que você pararia seus afazeres, seus relacionamentos, sua vida agitada, pra ler umas palavras meio ordenadas e esperançosas de um menino distante em todos os sentidos que se diz apaixonado pelo seu enigma? Olha, uma das coisas que aprendi na vida é recolher-me em minha pequenez, e sinceramente, eu não espero que isso um dia possa acontecer.

Quero que leia essa carta e saiba que, sinceramente, eu te amei muito. E eu só posso agradecer por isso. Por ter-lhe amado tanto e rompido tantos paradigmas nesta idealização (vista como tosca) do amor, eu pude escrever tanto! E é isso que eu quero deixar explanado nesta carta: eu te amei, e por te amar, escrevi. O que escrevi? Poemas, crônicas, cartas, textos tristes, textos alegres, palavras desordenadas, poemas de 140 caracteres, textos enormes…o que importa é que você, Oliveira, foi quem me inspirou a escrever e eu, sinceramente, devo a você minha vida.

Tantas noites eu pensei tanta besteira, mas ao pensar em você…ah que luz! E eu escrevia. ”-E agora, Roberto? -E agora tu escreve!” Assim eram nosso diálogos, assim eram nossos dias, assim, na verdade, o são. E eu só posso lhe dar todo meu amor em retribuição. Não é muito, não é da melhor qualidade, não é de todo seu merecimento…mas aceita?

Com carinho, 

FDP em Apuros.

E agora, Roberto? -pt 2

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Como num declive infinito, a gente deixou de se entregar.
A música já não tinha melodia, já não tinha letra, já não envolvia.
E eu, tolo, ainda lhe queria. E agora, Roberto?

E agora, Roberto?

Inúmeras vezes eu ainda te perguntava, e tu, não sabia o que dizia.
Acusou-me os defeitos. Acusou-me o físico, o sentimental, o financeiro.
Disse-me ódio, disse-me dor. Por que, Roberto?

-Não era um precedente de amor?

E aí tu dizia que me odiava, que de mim, era repulsa que sentia.
Por que, Roberto? Por que você fez isso?
E eu, todo entregue, aos poucos comecei a chorar.
Doeu, Roberto, doeu lá no fundo.
Quantas vezes eu tentei lhe mostrar que com você,
Roberto, era fácil aprender a amar.
Lhe defendi com meus exércitos, soube muito de ti…
E você nunca me fez uma pergunta.

Porque usar este menino a seu favor?
Porque usar esta criança a favor de seus mais sujos interesses?
Nunca entendi. E com o olhar, já não tão brilhante, eu te perguntei:
-E agora Roberto?
E tu, tão seco e distante, respondeu:
-E agora tu me deixa!
Ah Roberto, que dor eu senti!

E eu tive de aprender, Roberto,
Que eu teria que deixar muitas coisas …que difícil lição da vida!
E eu te deixei, mas e a ponte que construí pra chegar até você?
Quando fui derrubá-la…
Você já estava andando opostamente do outro lado,.
Estou agora, Roberto, indo num caminho equidistante
De mais essa minha paixão.

Sua mãos já estão entrelaçadas com outras e as minhas,
Calejadas, secam meu suor sob este sol quente.
Mas eu nunca vou me esquecer, Roberto,
Do dia em que lhe perguntei:
-E agora Roberto?
-E agora tu me beija!
E eu nunca beijei.

Porque alimentar a minha mais alta esperança, Roberto?
Porque já não me dar a paulada na moleira e evitar tudo isso?
Eu não posso ser brinquedo, eu não posso ser um tapa-buraco, Roberto!
(Embora já tenha me acostumado a isso.)

Por que, Roberto?
E agora, Roberto?
Bom…agora a gente se deixa…
Porque preparar o solo pra nunca ser semeado?
Você foi cruel, Roberto! Cruel!
Cruel por ter me esperançado.
Mas porque, Roberto?

Quem foi 2013?

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Quem me garante, pois se levante! Quem foi 2013 senão um ano poesia? Poesia, dessas que a gente escreve sem nexo nenhum, como as que já postei aqui, e vive intensamente achando-a a melhor coisa já escrita por uma ser humano. Numa de minhas reflexões pelo Facebook, eu dizia justamente sobre isso: a poesia é uma particularidade explanada em papel. Quanta poesia eu escrevi!

Eu poderia chorar aqui como antes, dizer que este ano foi um suplício só, não que ele não tenha sido, não é isso, mas eu acho que gera um coitadismo desnecessário, parece que há em mim um sentimento de que as pessoas precisam sentir pena de mim. E elas não precisam, assim como eu não preciso desse sentimento delas. Esses dias mesmo eu descobri isso…E quanta coisa eu descobri?

Bem, passei uma semana no litoral com uma família moldada pela vida: um cinquentão descolado, uma mãe moderna, um ”irmãozinho” nerd e uma amiga patricinha, foi interessante e reflexivo. Ao final desta: primeira medalha de campeão. Eu era um dos seletos pra entrar na Universidade Federal do ABC, de imediato arrumei minhas malas, fui fazer a matrícula e enchi-me de esperança a fim de viver um futuro do qual sempre almejei. Estava ali o ponto final de minha história. Estava ali o silêncio dos que não acreditaram em meus sonhos maiores e tentaram deturpá-los. Eu cheguei lá. Não só cheguei como fui além. Semanas depois e eu era, novamente, um dos seletos alunos da Universidade de São Paulo. Também era parte do 1% de alunos que tiraram notas entre 900 e 1000 no ENEM. Eu fui fantástico quando imaginei ser medíocre. A vida me surpreendeu abundantemente e eu aprendi que o segredo é sempre esse: teimar. Eu teimei e cheguei onde queria.

Aí veio a mudança, aí veio muito choro, aí eu tive que deixar de ser o maioral numa cidade de oitenta e poucos mil pra ser um zé ninguém numa cidade de milhões. Eu era mais um numa faculdade desconhecida por mim, num lugar desconhecido por mim (e feio) e morava, adivinhem só: com desconhecidos. Quem foi 2013 senão a ultrapassagem de todos esses meus temores?

E foi dividindo a dor que fez-se amor. Numa conversa triste dentro do restaurante universitário que eu descobri que era egoísmo sentir sozinho tanto medo, tanta mágoa e tanta angústia e achar que estes eram só meus. Eu teria de arrumar um jeito de sair desse fosso, que é normal, mas não eterno. Aí eu cresci, o restaurante virou um centro de risadas e piadas bobas e, às vezes, maliciosas, a vida foi se ajeitando, a rotina foi tomando forma, os amigos foram se aglutinando e eu entrei num grupo de maiorais. Cada um maior em uma especialidade, em uma particularidade, em um sentimento. Eu até ousei escrever um poema sobre isso depois de uma virada de noite fantástica num karaokê na Liberdade, mas acho que o sono me impediu de manter alguma concisão e ele deverá ser lapidado lá por 2014, quem sabe quando pegarei o bloco vermelho novamente?

Também tive de me despedir dos ”amores” de 2013. Amores? Que amores!? Dos flertes, quem sabe. Acho que pela primeira vez na vida eu estou tomando o partido de dizer ”é só amizade”. Talvez um coleguismo. Não sei ainda a que ponto essas minhas relações chegaram ou chegarão, mas já não me motivam mais a deitar e desenhar no teto inerte todo um futuro que quero pra mim. Eu quero muito mais que o perímetro urbano lorenense ou paulista. Eu quero, e preciso, do mundo.

2013 foi um fanfarrão em diversos aspectos, eu cresci uns cinco anos em um, tive experiências fantásticas, reveladoras e acima de tudo: educadoras. Talvez eu esteja agora meio ativista, meio de esquerda, meio revolucionário, meio radical, meio polêmico, meio poeta, meio vadio, meio boêmio, meio cultural, meio excêntrico, meio eu, meio ele, meio nós, meio amor, meio ódio, meio tudo. E um pouco de tudo por ter sido completo em um verbo: viver. (Ao meu modo).

Vivi. Me perdi em São Paulo algumas vezes, entrei em filas, em muvucas, em contingentes, em estatísticas e em greve. Amei duas, três pessoas. Senti ódio delas também. Gostei intensamente de uma pessoa. Escrevi poemas pro amor, pro ódio, pras pessoas e pra vida. Aprendi a assistir o documentário ”Não Gosto dos Meninos” com uma visão de ”é mesmo!”. E me sensibilizei com causas que, em Lorena, eram invisíveis aos meus olhos e aí surgiu o sonho da política. Como político mesmo, exercendo o Legislativo ou o Executivo? Não sei. Mas há algo nesta vida que eu preciso fazer pelas pessoas, e esse sentimento cresce dia após dia dentro de mim. Esse algo é poesia, é política, é nada? Isso eu terei de descobrir vivendo mais ainda essa louca vida que me deram. Também me espiritualizei mais durante esse ano, e a proximidade com minha fé me permitem caminhar olhando o céu e imaginando como será o futuro que terei se eu, com fé e retidão, agir. É só isso: acreditar e agir. A receita não é simples assim, pra mim funciona, mas e pros outros? Bem, eles que, como eu, descubram por eles mesmos!

Quem foi 2013 senão um tremendo de um fanfarrão? E pra 2014? Bem, eu preciso de um prazo pra pensar no que fazer amanhã com os restos da ceia…Importante dizer que sou o maior interessado nas investigações e o Estado deverá ser indenizado.

Uma foto de 2013? Uma música pra 2013? Um filme pra 2013? Não sei.

Um desejo pra 2014? Vida. O resto a gente se vira como pode.

Oh Luas longes.

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Oh Luas!
Tão longes das ruas,
Tão nuas…
Oh luas decrescentes,
Rima dos olhares
Pobres e descrentes!

Oh Luas tão minguantes
Porque tudo não volta?
Volte Lua, a ser como antes!
Oh Luas, tão novas,
Porque não me renovas?

Oh Luas, tão cheias,
Corram, sentimentos,
Dentro de minhas veias.

Oh Luas cruas,
Luas nuas,
Luas suas.

Oh Luas longes,
Luas de monges,
Luas dos brutamontes.
Luas. Porque suas?

Oh, Luas, meus alimentos.
Porque força?
Porque fé?
Porque amor?
Porque paz?
Porque Luas?
Porque sentimentos!?

*Eu sei que não existe ”longes”, mas eu curti a sonoridade dos S’s.

Onde o mapa num marcô.

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Lá donde o mapa num marcô,
Onde ninguém pudia avistá…
Era uma secura que só, dava dó só de oiá!
A muié, sem farinha pros fio alimentá.
O homi, sozinho, pra terra começô gritá:
-Ara que disgraça, nessa terra farta tudo!
Mais que fartura havia de ter, no alvo do mundo?
-Essa terra desgramenta, nada que pranta dá!
E o céu enton se abriu e um homi,
Pro moribundo, começô a falá:
-Fala enton, fio meu, que é que tá a te fartar?
-Eu tô cansado, sinhô Jisuis, de tanto trabaiá!
-Mais num era uma terrinha que ce tinha pidido?
-Mais que terrinha desgramada, que lugar isquicido!
-Ocê começô a arar?
-Não só arei, co suor da minha cara eu tamém reguei!
-Ô fio meu, mais que te farta nessa terra?
-Farta tudo, paizinho! Farta amor, farta carinho,
Farta mio pas crianças, tumate pra muié,
Farta batata-doce pa fazê doce, farta inhame!
Farta abraço, farta tratamento iguar, farta a chuva…
Farta o mar! Farta amor, eu quiria amar! Ai Jisuis!
Como eu quiria arguém quimiame!
-Mais e a muié e as criança? Num consegue mais amá?
-Eu inté amo, mais eu quero amor di abraço,
amor di laço, amor di fartura, não amor qui farta,
ocê sabe que eu quero amor di fundo di zóio,
amor dieu e mais arguém qui vem di Deus!
-Ô meu fio, nisso eu num posso ajudá! Se ocê
Pidisse arado, pidisse água, pidisse o mar…
Eu inté dava…mais amor, fio? É mior a terra ará!
O céu enton se fechô, o homi se cansô…
A terra inté que miorô, a chuva chegô…
E ele tá lá, sentado no toco, veno as criação
Escreveno poema, chorano co coração…
Coração qui nem sabe onde fica,
Fica donde o mapa num marcô,
Onde ninguém pudia avistá!
Ah hómi, qui dó que dá!

-Escrevi assim por liberdade poética e vivência com gente que, de fato, fala assim. A mensagem, a meu ver, ficou mais delicada. Mesmo sendo triste, mesmo sendo fruto deste fdp em apuros.

Brincadeira de criança;

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Se lembra das brincadeiras de criança quando a gente fingia vender coisas? ”Oi fulaninha, quer comprar uma bicicleta?”. Aí a outra criança com a mesma voz fina dizia ”Oi senhor, eu quero, quanto custa?”. Nessa mesma brincadeira saía uma discussão no meio por um querer ser mais controlador que outro: ”Ai, não é assim, já falei, você fala isso, isso e isso.”/”Aí você diz isso que eu digo isso.”/”Aí você vai lá e pega o dinheiro.” Numa dessas noites meio geladas e meio quentes eu voltei pra casa refletindo nessa coisa infantil e pensando no quanto a gente quer controlar, mandar, ordenar. É visceral o desejo de querermos que as coisas sejam como brincadeira de criança, onde a gente controla a nossa fala, a fala dos outros e onde a brincadeira vai terminar. ”Cansei, não quero mais brincar.” Hoje mesmo eu estava cozinhando e pensando no que eu conversaria, com quem eu conversaria, que elogios o prato renderia, que elogios o vinho renderia…E por fim rendeu-me apenas louça pra lavar. ”Agora, amor, você diz que me ama.” E agora Roberto…não sei!